sábado, 27 de dezembro de 2014

Antofagasta


6º Dia no Chile (dia 14 do mochilão)

 Acordamos as 6h e comemos o lanche que havíamos comprado no mercado no dia anterior. O Hostel Puritama tem uma ótima área para preparar alimentos. Seguimos caminhando com nossas mochilas pelas ruas ainda vazias de San Pedro de Atacama em direção ao pequenino terminal rodoviário de onde as 8h sairia o ônibus da Tur-Bus para Antofagasta no litoral chileno.

Optamos pela viagem de dia, pois o tempo de percurso entre San Pedro de Atacama e Antofagasta é de cinco horas, não sendo possível uma noite inteira para dormir e o último ônibus sai as 22h de San Pedro. Aconselho sempre que puder comprar passagens com antecedência, mesmo para este trecho que é pouco procurado pelos turistas convencionais, já que a maioria atravessa do Atacama para a Bolívia ou sobe para o Norte com destino final no Peru, rumo a Machu Picchu, no caminho inverso do que fizemos.

 O ônibus sai vazio até Calama onde enche de trabalhadores. O trajeto entre as duas cidades é também rota dos mineiros, já que a região é rica em cobre e possui diversas de minas em operação. Cruzamos o Deserto do Atacama durante 5 horas em um confortável ônibus da Tur-Bus, aproveitamos para assistir a um filme (escolhido pelo assessor do motorista e transmitido para todo o ônibus em televisões no teto do corredor), quando o segundo filme começou eu dormi. Fora isto era só areia na paisagem pela janela.

 Por volta de 13h chegamos a Antofagasta, percorrendo ruas de aspecto duvidoso na periferia. Na rodoviária compramos as passagens para Caldera para as 23h, portanto teríamos toda a tarde e noite na cidade. O terminal terrestre localiza-se nos arredores da cidade, um pouco afastado do centro e ao desembarcarmos logo somos assediados por taxistas. Como não conhecia a cidade e as linhas de ônibus, tomamos um taxi para a Praça de Armas no centro. Para quem estiver interessado, informo que existe um ponto de ônibus na saída da rodoviária e é possível fazer o deslocamento para o centro pagando muuuuito menos... mas até então nós não sabíamos disso!

O percurso entre a rodoviária e a praça no centro, é um tanto quanto longo. Antofagasta é a quinta cidade mais povoada do país e o entorno do centro histórico é típico das grandes cidades.

  
Antofagasta na costa chilena: Encontro do Deserto do Atacama com o mar do Pacífico

O taxi nos deixou na histórica Plaza Colón, onde no ano de 1879 as tropas chilenas desembarcaram para a conquista do território, até então boliviano, durante a Guerra do Pacífico.

 
Aline na Plaza Colón ou Praça de Armas de Antofagasta

No centro da praça encontra-se um relógio doado pela comunidade inglesa, no ano de 1911, em uma torre quadrangular com treze metros e meio de altura. O relógio foi construído como uma reprodução em menor escala do que existe na Torre do Parlamento de Westminster emitindo, inclusive, os mesmos sons do Big Ben original.

 
Relógio do Inglês

De frente para a praça encontra-se a Catedral de San José, cuja construção foi concluída no ano de 1917, graça aos esforços do Monsenhor Luis Silva Lezaeta, no mesmo lugar do templo anterior que havia sido destruído por um incêndio.

 
Catedral de San José

Na verdade a igreja original havia sido construída pelos bolivianos em 1874, mas foi consumida pelo fogo durante a ocupação chilena, sendo reconstruída através dos esforços do padre Florencio Sanches e de, seu então secretário, Lezaeta em 1883. No entanto, em 15 de novembro de 1096 o templo de madeira foi novamente consumido pelas chamas, sendo reconstruído, pelo já Monsenhor Lezaeta, em pedra e ferro do modo como está até os dias atuais. Pelos constantes esforços e dedicação o Monsenhor é hoje homenageado com uma estátua na praça diante da Igreja que foi elevada ao status de Catedral no ano de 1929.

 
Estátua do Monsenhor Lazaeda

A praça é grande e bem arborizada, possuindo um coreto, muito comum aqui no Brasil também. Conhecido como Kiosco de Retreta, foi doado pela colônia croata no ano de 1911 e declarado Monumento Histórico Nacional em 1995.

 
Kiosko de Retreta

Completando nossa volta pela praça nos deparamos com um último monumento dedicado aos reis da Espanha. Doado pela colônia espanhola como presente pelo centenário da República Chilena, o Monumento a lós Reyes de España apresenta a figura dos reis, um leão e um condor.

Os reis, o condor e o leão

Atravessamos a rua da praça e paramos em um centro de informações turísticas para saber o que tínhamos para fazer na nossa rápida estadia na cidade. A simpática atendente nos deu um mapa da cidade e também de Caldera, para onde iríamos depois. Nos explicou um pouco sobre os monumentos na Praça de Armas e sobre o antigo prédio dos correios diante da praça e que não havíamos dado tanta importância mas que foi reconhecido como monumento histórico em 2009. O prédio foi construído entre 1921 e 1930.

 
Antigo prédio dos correios

Entre as principais atrações turísticas de Antofagasta estão as Ruínas de Huanchaca e a famosa La Portada, um monumento natural que nada mais é do que uma rocha esculpida pelo mar que se transformou em um arco de pedra. A menina do centro de informações nos informa que é possível ir de ônibus até as ruínas e anotamos as linhas que passavam por lá, mas que o monumento natural encontra-se a 18 Km de distância da cidade e que não existem rotas de ônibus para lá. Teríamos que pagar um taxi que cobra preços altíssimos, bem acima do que seria o valor normal para a distância do percurso. Um grande painel com a foto de La Portada estava diante de nós e consideramos que não valeria o gasto e o esforço para ver uma pedra no mar. Preferimos ocupar nosso tempo conhecendo as atrações dentro da cidade. Para aqueles que estão interessados em conhecer os arredores, Antofagasta possui atrações nos balneários de longas praias e em cidades fantasmas que eram antigos povoados mineiros, mas não posso falar sobre eles, pois não saímos dos limites da cidade.

 
La Portada: Foto da foto

Deixamos a praça e seguimos caminhando pela Calle Banquedano, junto a linha do trem da Ferrocarril de Antofagasta. Nos chamou a atenção a antiga Casa Gibbs, datada de 1915, que foi um centro de importação e exportação de diversas mercadorias, principalmente as referentes a mineração e cujos lados da fachada estão cobertos por um mural de 1.000 m².

 
Casa Gibbs com a pintura nas paredes

O grande mural “A estação ferroviária com os heróis da história de Antofagasta” foi pintado em 2008 e recria a estação de trem no ano de 1915 com personagens importantes da história da cidade.

 
Tudo ali atrás, menos a escada, é parede pintada

A pintura compõe o que dizem ser o maior mural do Chile, mas outra atração ganha espaço diante da casa, a escultura “O rei da água e sua mula”, que em tamanho real parece compor o quadro representado nas paredes da Casa Gibbs.


O rei da água e sua mula

Tomamos um ônibus conforme a menina do centro de informações turísticas havia dito e seguimos para as famosas Ruínas de Huanchaca. O percurso é um pouco longo e no caminho ainda tivemos a grata surpresa de passar pelo Estádio Regional de Antofagasta, construído no padrão FIFA com capacidade para menos de vinte e duas mil pessoas.

 
Estádio Regional de Antofagasta

Ainda do ônibus é possível avistar as ruínas a sul da cidade. As ruínas são o que restou do complexo industrial Playa Blanca Huanchaca que pertencia a uma companhia mineira boliviana e recebia os minerais vindos de Oruro e Potossi. A fundição de metais, construída a partir de 1888, foi inaugurada em 1892 e chegou a ser a mais moderna e maior refinaria de prata da América do Sul, tendo uma usina de energia própria para suprir as suas necessidades. Deixou de funcionar em 1902, com o declínio da exploração de prata nas minas bolivianas e uma inundação que fechou a mina de Pulacayo.

 
Ruínas de Huanchaca

Na área foi erguido o Parque Cultural Ruínas de Huanchaca, por onde se pode caminhar e apreciar as ruínas da antiga fundição. Placas com informações contam a história do lugar que era responsável pela fusão e resfriamento de minerais de prata e produzia cerca de duzentas toneladas por dia, chegando a empregar mais de mil e duzentos trabalhadores no seu auge.

 
Aline e as ruínas
 
Vagando pelas ruínas


Eu não havia imaginado em nenhum momento que eram ruínas tão “modernas”. Depois de tanto tempo vendo ruínas incas e de outros povos pré-colombianos, encontrar um pouco de história recente do ciclo da mineração boliviana e chilena foi muito bom.

 
Antiga fundição de Huanchaca

Dentro da área do Parque Cultural encontra-se o “Museu do Deserto de Atacama” que chama a atenção com um Jardím de Rocas junto a entrada onde estão minerais e pedras extraídas na região norte do Chile.

 
O moderno Museu Deserto do Atacama
 

Jardim de Pedras



Fomos muito bem recebidos no museu que é muito moderno. Deixamos as mochilas pesadas na recepção e pegamos um controle remoto com fones de ouvido por onde se podia ouvir as explicações em Português para as diversas salas e exposições.

 
Fotos são permitidas nas exposições permanentes
 
Explicações em português através de fones e controle na mão


O museu possui 2.200 m² divididos em diversas salas com exposições permanentes que contam a história geológica do Atacama, através de suas rochas e fósseis, e a história da civilização desde os primeiros homens, passando pelos incas e finalmente chegando a época da colonização espanhola e da mineração.

 
Fóssil encontrado no Atacama e exposto no museu

A história da mineração e da própria Huanchaca começa a ser contada em um espaço onde há uma interação entre a exposição e a ruína logo atrás. Um painel foi pintado de forma a demonstrar como operava o complexo industrial e de um determinado ponto é possível ver a pintura e a construção de tal forma que uma completa a outra, dando a impressão de se olhar o passado.

 
Espaço recria os tempos de operação da fundição

Historicamente toda a região teve uma economia baseada na exploração de minerais e nos primeiros anos a prata era a principal atração da cidade. Posteriormente, a descoberta de jazidas de salitre e seu valor mundial, fizeram de Antofagasta um lugar de grande interesse. Por causa do fechamento da mina Pulacayo, a queda da prata na Bolívia e a volatilidade do preço do produto no mercado mundial, Huanchaca encerrou suas atividades no ano de 1902. Depois da queda da prata e da indústria salitrera o país entrou numa profunda depressão econômica, sendo realizado o desmembramento do complexo através leilão de bens. O antigo quarto motor da fundição se tornou a capela militar de propriedade do exército localizada na costa litorânea no centro da cidade.





Atualmente, o cobre se converteu no principal mineral da região e toda a história da mineração é mostrada no museu, que tem os utensílios utilizados na mineração nos últimos séculos.

Bolsa para carregar o minério do fundo da mina para a superfície

O museu possui uma moderníssima sala de multimídia que conta toda a história da mineração através de reconstrução em 3D. A duração dos vídeos é de uma hora e a programação é fixa passando de duas em duas horas, mas como estávamos sós no museu a menina da recepção nos chamou para assistir uma seção exclusiva!

 
Sala de multimídia conta a história passo a passo
 
Muito moderno o museu

Vídeo que conta a história do minério no Atacama


A última parte da exposição se volta para o cosmos e as estrelas que nos últimos anos tem estado integrados com o deserto, já que o Atacama se transformou em um laboratório de testes da NASA para as viagens espaciais. O veículo lunar testado no deserto através de uma parceria da agência espacial americana e da Universidade do Norte do Chile foi doado para o museu. Em 2013 um novo protótipo foi testado nas areias da árida e inóspita região norte do Chile, este irá em busca de vida microscópica no planeta Marte. Com clima seco, alto índice de radiação ultravioleta, ventos fortes e tempestades de areia, o deserto é a combinação mais próxima do ambiente encontrado no planeta vermelho.

 
Módulo lunar da NASA: testado no Atacama e utilizado na Lua, foi doado para o museu depois da missão espacial
 
Representação do cosmos

Foto de uma nebulosa


No fim buscamos nossas mochilas na recepção, devolvemos os fones e nos despedimos com a certeza de que esta é uma visita que valeu muito a pena. Recomendo a todos que passarem pela cidade conhecerem o Museu. Tomamos o ônibus e descemos na costa para conhecer a capela que havia sido o quarto motor da fundição de Huanchaca.


De volta ao mar
A sala de máquinas de Huanchaca foi transferida para 1º Divisão de propriedade do Exército do Chile e convertida, no ano de 1942, na bonita Capilla Militar Nuestra Señora del Carmen que encontra-se atualmente junto ao mar.

 
Capela Militar construída no que foi a casa de máquinas de Huanchaca

Gaivota andina


A região costeira no centro da cidade é bem pedregosa e não existem praias, apenas o mar do Pacífico batendo forte contra as rochas. Fiquei imaginando como teria sido o desembarque das tropas chilenas quando houve a tomada da cidade, até então boliviana, durante a guerra do Pacífico.

 
A costa rochosa próxima ao centro de Antofagasta

Ainda diante do mar encontra-se o shopping Mall Plaza de Antofagasta. Seguimos até lá para comer e descansar. Não gosto de passeio em shopping, mas esse foi um ótimo lugar para passar o tempo e esperar anoitecer. Com uma vista para o mar foi possível admirar o lindo pôr do sol no Pacífico novamente.

 
Pôr do Sol visto do shoping
 
Todo fim do dia tem espetáculo de cores no céu


Comemos na praça de alimentação ao ar livre, enquanto o sol ia dando seu espetáculo de cores junto com o céu e o mar. Aproveitamos o tempo livre para dar uma volta no shopping (Aline não ia perder essa oportunidade... rs), sentamos e atualizamos nossas anotações no diário, que depois veio a se tornar este relato, e aproveitamos para acertar o planejamento dos próximos dias de viagem. No fim tomamos um taxi para a rodoviária, já a noite, pois as 23h tomaríamos o ônibus da Tur-Bus em direção a Caldera.

Despedida de Antofagasta

Gastos para 2 pessoas em 20/03/2014:

- Taxi (rodoviária x centro): $ 5.000,00 CLP
- Ônibus: $ 900,00 CLP
- Museu do Atacama: $ 4.000,00 CLP
- Ônibus: $ 900,00 CLP
- Almoço no shoping: $ 7.000,00 CLP
- Taxi (shoping x rodoviária): $ 2.000,00 CLP
- Ônibus para Caldera: $ 18.000,00 CLP

2 comentários:

  1. Muito bom o artigo. Eu estou pensando em ir de San Pedro ate La portada. Chegando no atacama eu procuro mais informações e decido. Parabéns pelo artigo.

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    1. Além de La Portada existem diversas áreas interessantes nos arredores de Antofagasta, mas para quem está de ônibus mochilando não é fácil de conhecer... se estiver de carro vale conhecer a região e o deserto em Antofagasta. Boa trip e depois conta como foi ;-)

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